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20.6.18

Desapegos - conto

Photo by RAHUL SHAH from Pexels

Ela encarou o último chocolate da caixa. Não sabia se guardava aquele último pedaço de prazer para alguma hora mais tarde da longa noite que teria pela frente. Respirou fundo e voltou ao árduo trabalho de separar os tão queridos livros entre as inúmeras caixas de mudança e de doações. Na nova vida não haveria espaço para excessos, então manteria consigo apenas as leituras que a marcaram de alguma forma.

Desapegar não era fácil. Desde que recebera a nova proposta de emprego para trabalhar em uma outra cidade, Larissa não havia sossegado. Primeiro o peso da decisão a ser tomada: Abandonar uma vida estável para recomeçar? Em seus trinta e dois anos nunca houvera muito espaço para incertezas. Era determinada e o antigo emprego foi uma conquista merecida, fruto de muita luta. Mas o novo salário era realmente bom, e a vida na cidade grande sempre fora um sonho distante para a garota que cresceu no interior. 

Concentrava-se nas paredes, agora vazias, da casa que não seria mais sua. Iriam todos os quadros caber nos quarenta e cinco metros quadrados do apartamento novo? E a cama king size? Mas para ela desapegar-se de quaisquer móveis seriam infinitamente menos doloroso do que deixar alguns livros para trás. 

Enxugou uma lágrima que apareceu de teimosa, bebeu, em um copo de requeijão,  um gole de vinho  para afastar a vontade de abrir o bombom e colocou uma velha canção de blues para tocar. Sorriu. Pensou em todos os sonhos que iria realizar. As oportunidades que teria pela frente. Quem sabe a casa própria? Um carro novo? Ou até mesmo casar e ter filhos.... A idade estava batendo na porta, o relógio biológico a apressava. Mas ainda não era hora de pensar nisso. 

Riu ao ouvir a voz de Billie Holliday. Era a única em seu grupo de amigos da cidade interiorana que gostava de blues. Talvez seu lugar fosse mesmo numa capital. Lá poderia aproveitar a vida noturna agitada, ter uma vida cultural mais rica. Ah, visitaria museus, bibliotecas e teatros. Faria novas amizades.

Voltou ao árduo trabalho de encaixotar os livros. Eram os únicos objetos da casa que ainda encontravam-se em seu lugar de costume. Os outros estavam todos devidamente embalados, rotulados, à espera do caminhão que chegaria pela manhã. E Larissa sabia que talvez tivesse que passar a noite inteira ali, escolhendo com muito critério quais dos seus preciosos livros a acompanhariam na nova vida. Talvez levasse apenas os que a transformou, a cada leitura, em uma nova Larissa. E isso devolveu-lhe a motivação inicial e a excitação que acometeu-lhe quando recebeu a nova proposta de emprego. Percebeu que independente de onde estivesse, ela estaria em paz. E comeu seu último chocolate para aguardar o futuro que a esperava. 
24.5.18

Morando longe da minha estante de livros


Esse ano saí de casa pela primeira vez. Queria dizer que já me adaptei e que fiz grandes amizades. Mas ainda estou nesse processo. 

Como a minha casa nova fica numa cidade próxima à casa dos meus pais, encontro-me em um lar provisório. De segunda a quinta. E então não tenho todas as minhas coisas no meu novo quarto. 

O que mais doeu deixar para trás (além da minha gatinha Laila) foi a estante. 
Aquela que eu amava admirar. Aquela que eu arrumava, e olhava, e pensava no que ler... 

Isso me afastou um pouco do blog. 80% das postagens foram definidas olhando para ela. Analisando os meus livros. 

Várias vezes considerei o ponto alto do meu dia chegar em casa e deitar na cama olhando para a estante. Ou abri-la e passar os dedos pelas lombadas dos livros, quase como um ritual. E assim escolher a minha nova leitura. 

Nem que eu quisesse ter comigo uma parte dela eu conseguiria. Não tenho espaço suficiente no meu novo quarto para isso. 

Então, pouco a pouco vou escolhendo minhas leituras. Num fim de semana eu a olho e seleciono algum livro para viajar comigo. 

Há algumas semanas consegui formar uma pequena pilha no meu guarda-roupas. Mas ela diminuiu e eu não repus. Eram tantas as leituras atrasadas e os e-books por ler... 

E olhar esse quarto de paredes brancas, móveis brancos dá um certo desespero. Seria muito reconfortante ter um colorido de lombadas, todas lado a lado na vertical, para alegrar meu dia. 

Bem que eu queria poder escolher minha leitura para o agora, e não para a semana. Bem que eu queria não ter que passar pela ansiedade de chegar em casa e escolher um livro bem gostoso. 

Se lar é onde mora o coração, o meu mora junto com meus livros. Porque não consigo imaginar uma vida sem a companhia daquele objeto de papel que guarda dentro de si as mais valiosas emoções. 

Ah, que vontade de chegar em casa, preparar um café e escolher minha próxima leitura....
25.4.18

Não consigo me concentrar para ler


Se tem uma coisa que me faz falta no dia-a-dia é a leitura. E fico muito chateada quando simplesmente não consigo ler. 
Eu faço tudo o que costumo recomendar a vocês: levar o livro a todos os lugares, abrir o livro quando sobra um tempinho, no ônibus, trocar outros hobbies por leitura. Mas e a concentração?

Não posso chamar isso de ressaca literária. Tampouco posso dizer que seja apenas uma falta de interesse temporário pela leitura. Acho que estou muito mais para esgotamento mental mesmo. 
31.7.17

Realizando pequenos sonhos literários

Todo leitor tem sonhos literários. Creio que o mais comum seja aquele grandioso de ter uma biblioteca em casa, tipo a da Fera. Quem nunca sonhou em ter um cômodo da casa inteirinho tomado por livros? Com prateleiras do chão ao teto e uma poltrona bem confortável para a leitura? 

Eu tenho esse sonho. E já tive os sonhos menos grandiosos também, mas ainda assim levemente ambiciosos.  Um deles foi a minha estante de livros. 

8.5.17

Sobre a efemeridade do tempo

Imagem: reprodução/ Pexels

Ultimamente me peguei pensando, não uma, mas várias vezes, no tempo em que desperdiçamos cumprindo obrigações. Que tempo que nos resta para realmente viver? Tenho andado tão atarefada que lavar o cabelo torna-se luxo. Enquanto isso, todos os pequenos prazeres, aqueles que me fazem quem eu sou, vão ficando para depois. Fica para depois um bom livro, que está pegando poeira na minha escrivaninha, fica para depois uma xícara de chá, aquele filme na Netflix, a sobremesa que queria cozinhar. 

3.4.17

Crônica de uma viagem qualquer


Pego ônibus todos os dias. Viajo uma hora na ida, outra hora na volta. São duas horas de estrada por dia. 

Duas horas a mais de sono, um sono gostoso embalado pelo movimento do veículo. Quando eu não estou muito cansada, raridade esse semestre, consigo transformar metade desse tempo em leitura. Aí eu estou numa metalinguagem viajante. Vou para outro universo, outros países, outras dimensões enquanto viajo entre campinas e Jundiaí. Um movimento pendular que me faz passar mais tempo na cidade de estudo que na de residência, onde vou apenas para dormir. 
8.3.17

Feliz Dia Internacional da Mulher!


Neste 8 de março bem que eu queria homenagear grandes escritoras, cientistas, revolucionárias e mulheres que marcaram a história. Mas optei por dedicar esse espaço para as mulheres do dia a dia. Aquelas que todos nós conhecemos. Esse post será carregado de referências pessoais, mas não é isso que lhe tira o valor coletivo.
1.2.17

Saudades do meu interior...

O pé de manga da faculdade que desencadeou tais emoções

Outro dia encontrei um pé de manga na minha faculdade. Um não, vários. Imediatamente fui transportada para um estado nostálgico.

Eu cresci no interior. Sou caipira, bicho do mato mesmo. Minha casa sempre teve um quintal enorme, cheinho de árvores frutíferas. Era caju, acerola, manga, coco, goiaba, seriguela, limão, mamão, maracujá, pequi... Quando crianças, eu e minha irmã passávamos o dia todo brincando no meio do mato, o quintal de casa. Era quase uma chácara em perímetro quase urbano.  Bons tempos aqueles nos quais a única preocupação era tomar banho antes da minha mãe chegar do trabalho.


Ilustração por Wokumy • Layout por